Não há espaço que caiba.
Moíra Avelino.

Fracas tonturas envenenam,
Vagas lembranças torturam
Só no abrir de seus lábios
Encontro a névoa que me cura.
Minha janela, antes cerrada,
Agora em sorriso
Caixilha os seus olhos
De vermelho impreciso.
Os sentidos incitam
Uma lógica tendeciosa
Que fazem de meus dedos nuvens
Em suas nuas costas
Perco-me na cortina
Do seu abraço
Pra não mais fuga,
Não mais cansaço.
Moíra Avelino.
Hoje foi um dia difícil
Descendo, sem perspectiva
Nada brota deste solo infértil
O ar é rarefeito e
Sinto o peito apertar
Sufocando l-e-n-t-a-mente meu futuro.
Triste!
Culpa das minhas escolhas
Sempre feitas como se o próximo passo fosse certo.
Errada!
Se hoje a boca é seca e o gosto dos lábios é amargo
Não posso culpar a vida, pois a mim coube
A escolha do frasco.
Moíra Avelino.
Você... Usou, traiu, deixou
Deixou de ser, mas não de possuir
Sob a tua guarda- feroz escolta- fiquei
Iludiu, manipulou, mentiu, feriu.
Feriu a ponto de não mais sentir dor
Cada lágrima, tão singular, queimou
Queimou a pele, por dentro corroeu.
Tua identidade era a minha moldura
Uma prisão cercada por muros invisíveis, indestrutíveis
Teu toque minha algema;
Tuas palavras minha venda;
Teu corpo minha política;
Tua existência minha ciência.
Dominação.
Cada poro hermeticamente vedado
A minha privação o teu mundo, a tua felicidade.
Moíra Avelino.

No silêncio da inquietação noturna
Meus pensamentos voam rasgando o tempo
A procura do seu toque, das palavras.
Meus dedos, em compasso, correm pelo corpo
Vou e fico ao som dos seus gemidos
Toda ânsia, angústia e dor engolidas pelo furor das mãos
Sufocadas pelo enlace das coxas
Sobrepostos nossos corpos, unidas nossas almas.
Devaneios em suor, palavras e amor
O tempo se perde, o lençol se inverte
As pernas puxam, trancam, repuxam
Os braços em abraços querem estar mais perto
O intangível se desfaz ao encontro dos olhares seguros do desejo
Sentir, possuir, ser!
...
Pós- êxtase
...
A serenidade aflora a medida que o cansaço desliza entre nossos músculos antes ansiosos, tensos, tão rígidos.
Agora e sempre completos, inteiros, únicos.
Moíra Avelino.

A luz da piscina à noite refletindo em seus olhos
Nós dois conversando, tentando evitar olhar nos olhos com medo que a sinceridade floresça
O vinho, o cigarro...
Nossas mãos se perdendo para não se encontrarem
Tinha me esquecido de como é bom perder a noite para ganhar o dia.
E agora?
Os assuntos sumiram, nossos olhos se cruzam, nossas mão se encontram
Seu rosto chegando junto ao meu e o inevitável acontece...
Eu acordo!
Moíra Avelino.
Barba, cheiro... São beijos, enlaces, carinhos
Suor, mãos, cintura
Os seios são meus, as pernas são suas
Seus dedos suaves em meus cabelos
Toques avulsos, às vezes incompletos, sempre inteiros
As palmas se fundem, as mentes se ligam, as peles se confundem, as salivas se misturam
Numa conta impossível
De dois nos multiplicamos em um
Nos dividindo sem permanecermos os mesmos.
Sempre, sempre, sempre...
Nós atados.
Moíra Avelino.
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